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Os 130 anos de “Dona Noca”, personagem da personalidade “Joana da Rocha Santos”
24/11/2022 18:00 em Locais

Quem me conhece sabe, sou um admirador da política, – da boa política, sou aficionado pelo enredo que concebeu São João dos Patos e a tornou o que é hoje. Da minha parte, passaria horas ouvindo as narrativas que semearam a nossa política, sobre tudo, de como uma mulher em 1934 tornou-se prefeita e  como se perpetuou no cargo por 21 anos.

Talvez poucos se deem conta de como isso é extraordinário, numa época, em que não havia sufrágio feminino no Brasil, São João dos Patos, uma pequena cidade no sertão maranhense, teve a primeira prefeita do estado, a segunda do Brasil, a segunda da América Latina, se em pleno 2022 o ambiente político é extremamente masculino, naquela época a situação era absurdamente pior, sobretudo em anos de Coronelismo no sertão nordestino.

O que diferencia Dona Noca de Alzira Soriano (primeira prefeita do Brasil) foi o tempo em que permaneceu no cargo de prefeita, Dona Joana  comandou São João dos Patos por 21 anos, enquanto Alzira ocupou o cargo executivo apenas 01 ano.

Raquel de Queiroz descreveu Dona Noca em crônica da seguinte forma:

É mulher que já deixou de ser jovem, que se veste e se porta como uma matrona discreta, a autoridade escondida em brandura, sem precisar jamais de levantar o timbre da voz branda, chegando a provocar em quem não a conhece direito a impressão de que até é tímida. Tem a a fala suave, a expressão preciosa, como frequentemente acontece com a gente do Maranhão, que fala como se escrevesse – e escrevesse bem. Aos poucos é que se vai descobrindo nela a mulher excepcional, o temperamento singular que a distingue no seu meio, — e aliás em qualquer meio.

Dona Noca não apenas abriu caminhos para a participação feminina na política, em uma época em que tudo era negado à mulher. Ela abriu também as estradas que ligam São João dos Patos às cidades de Barão de Grajaú, Passagem Franca, Buriti Bravo, Pastos Bons, Nova Iorque e Paraibano. Construiu escola, o mercado público e instalou a energia elétrica no município. E criou a “Caixa dos Pobres”, obra social destinada ao aprendizado de carpintaria, tecelagem, costura, bordado, alfaiataria e outros.

Dona Noca exerceu ainda as funções de delegada, promotora pública e juíza de paz.

O jornalista maranhense Neiva Moreira (1917-2012), seu afilhado, assim a descreveu no livro “O Pilão da Madrugada: “Foi a mulher mais dominadora e decidida que conheci”.

A história de Dona Noca inspirou a minissérie “Dona Felinta Cardoso – A Rainha do Agreste”, de autoria do jornalista e poeta Ferreira Gullar, exibida pela Rede Globo, em dois episódios, no final da década de 1970.

Dona Noca tornou-se uma lenda no sertão maranhense por ter uma visão de mundo muito à frente de seu tempo fugindo dos padrões determinados pela sociedade patriarcal daquela época. Sua ascendência na política no início do século XX demonstra uma trajetória completamente diferente do que tradicionalmente se constituiu como “lugar de mulher”. Tal fato tem um grande significado para a história do Brasil, a influência exercida por Dona Noca durante mais de duas décadas foi tema de várias matérias jornalísticas como a da Revista do Globo (1951, p.15), que chama a atenção para a importância da prefeita, embora seja denominada de forma pejorativa de “coronela do sertão”.

Durante dezesseis anos ela ocupou o cargo de prefeito na sua terra, São João dos Patos; e foi a primeira mulher a dirigir os negócios municipais numa unidade brasileira. Mas nem por ter deixado a prefeitura D. Noca deixou de governar o município, onde até agora nada se faz sem a sua ordem, autorização ou aprovação, tácitas ou expressas. Sua casa, um vasto casarão […] é há um tempo prefeitura, delegacia de polícia e tribunal onde são julgadas com um agudo senso de justiça salomônica. É também uma casa de negócios, pois em D. Noca, uma coronela do sertão, a comerciante revela-se à primeira vista.

Sua presença e importância extrapolam os limites de São João dos Patos, tendo atuado em vários momentos de luta no Maranhão. A presença de Dona Noca na greve de 1951 também é destacada como uma força política contra o vitorinismo, demonstrando que o sertão também se rebelava contra as forças políticas do oligarca que dominava o Maranhão naquele momento histórico.

Lá no sertão também estourou a revolta das Oposições Aliadas lideradas por Joana da Rocha Santos, a “Dona Noca”, em São João dos Patos. Diz a história que sua casa era o quartel general dos revoltosos. Foi preparada uma reação com um deslocamento de tropas, com cerca de 12 mil homens, que iriam rumo a São Luís para derrubar Eugenio Barros. Havia uma senha, que seria o sinal de alerta para estourar a revolta, que era: “Adélia será operada dia 18″.

A greve de 1951, no Maranhão, foi um movimento articulado pelas oposições contra a posse do governador Eugênio Barros (PST), ligado a Victorino Freire, “vitorioso” em eleições marcadas por denúncias de fraude.

D. Noca fugiu dos padrões estabelecidos e ainda hoje se pode considerar que fez a diferença nesta Região onde atuou, foi uma exceção, uma vez que a sociedade continua destinando às mulheres o mundo das coisas com menor valor, as coisas invisíveis, razão porque seu reconhecimento como sujeito político ainda se constitui um projeto distante.

VIA JAKSON DUARTE

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